
- Tem cogumelos na sua cabeça!
O grito da menina o assustou. Intrigado, ele olhou a própria imagem no espelho, mas nada viu além dos seus longos cabelos cacheados.
- Não tem nada aqui. – disse, um pouco mais aliviado – Você está vendo coisas.
- Não estou! – ela afirmou, visivelmente irritada por ele não acreditar em suas palavras – Tem cogumelos em sua cabeça! – tornou a repetir.
- Bobagem sua! Precisa parar de ver ficção, estou plenamente normal.
- Tudo bem, não acredite. Algum dia, você vai ver. – ela finalizou.
Despediram-se e cada um tomou o ônibus que os levaria para as suas respectivas casas. O garoto ficou intrigado. “De onde ela tirou essa idéia de cogumelos?”, perguntava-se. A amiga era séria e bastante lúcida, não brincaria com esse tipo de coisa, mesmo que gostasse de certas brincadeiras. Seus olhos estavam espantados e seu rosto demonstrava surpresa. Não, não era brincadeira. Ela estava com uma expressão facial perfeita demais para uma mentira, coisa que não sabia fazer quando aprontava. Resolveu ignorar, era só coisa da cabecinha oca dela.
Encontraram-se, novamente, no dia seguinte. Ele disse “oi”, mas ela nada falou. Ao invés de saudá-lo, gritou, espantada:
- Seu cabelo, seu cabelo!
- O que houve? – ele perguntou ainda mais confuso com a reação da amiga.
- Seus cachos viraram cogumelos! Não vejo mais cachinhos, só cogumelos coloridos!
- Ainda está com essa história? Por Deus, deixe disso! Está ficando ridícula!
- Não minto, idiota! – a raiva tomava conta dela. Aos poucos, a menina perdia a sua paciência – Ridículo é você que não percebe o que está acontecendo.
- Você está vendo coisas, já falei. Se isso não foi ópio, então não sei o que é.
- Me respeite! – ela gritou, enfurecida. Lágrimas de ódio escorriam pela sua face – Algum dia você vai ver, algum dia! – e correu pela rua, chorando a raiva contida em seu peito.
Desde aquele dia, não se falaram mais; O orgulho impedia a volta do contato e um provável pedido de perdão. Ela não iria mais se importar, ele nunca a escutava mesmo! Ele não correria mais atrás dela, que menininha estúpida! Distanciaram-se e não voltaram a ser amigos e tão pouco voltariam. Nunca mais!
O tempo passou e cada um seguiu o seu destino longe um do outro. No entanto, o menino começou a sentir fores dores de cabeça, como se algo estivesse apertando o seu cérebro. Fora a médicos, vários doutores conceituados, mas nenhum encontrou o motivo para seu tormento. Passou a rezar, sempre clamando a Deus a cura para o mal que o atingira. Nada, entretanto, aconteceu. Continuou a sofrer, calado e sozinho.
Um dia, porém, quando voltava de uma consulta, esbarrou em uma pessoa. Já ia pedir desculpas ao notar que topara com sua velha amiga e essa pegava os livros que derrubara no chão. Lágrimas de emoção e nostalgia brotaram dos seus olhos, assim como dos dela quando percebeu o reencontro. Abraçaram-se emocionados e passaram vários minutos assim. Não fora necessário um pedido de desculpas, o gesto de ambos valiam mais do que palavras.
Porém, o menino, que agora já era um homem, teve outra das suas fortes dores de cabeça, perdeu as forças e caiu, sendo apoiado por sua amiga. Ela perguntou-lhe o que estava acontecendo e ele contou sobre as violentas crises de enxaqueca pelas quais passava. A jovem, por sua vez, retirou um espelho de dentro da sua bolsa e mostrou-o ao rapaz. Este, horrorizado, perdeu a sua fala e o espanto o fez desfalecer. Ela sorriu. Abraçou-o e ficou a alisar os imensos cogumelos coloridos que derramavam da cabeça do amigo, murmurando carinhosamente:
- Eu avisei, mas você não ouviu.
E ela descobriu o motivo pelas intensas dores de cabeça dele. Os cogumelos fixaram suas raízes no cérebro do jovem, matando sufocadas as idéias que ele possuía.
Autoria: Kamile Girão (ou seja, eu mesma)
Para alguém que nunca lerá esse conto.